Política de berço

Chegamos a mais um ano eleitoral e, mesmo ainda na pré-campanha, os ventos do obscurantismo e da difamação gratuita – simplificada no conceito vazio de “fake news” – já começam a soprar em nosso quintal. As mamadeiras de piroca e as seitas abortistas em breve ganharão suas versões locais, consolidando a real inovação dessa “nova política” que chegou para ficar.

Não é preciso muita técnica para produzir conteúdo difamatório e viralizá-lo nas redes sociais. O terreno está arado, adubado e pronto para a proliferação de qualquer mentira mal editada no Paint, basta ter um mínimo de criatividade conspiratória, nenhuma dose de caráter, um aplicativo qualquer da play store e, “Voilà!”, temos um cabo eleitoral pronto para fazer campanha para candidatos que não têm nada a propor.

Recebi essa semana, vinda da minha cidade natal, uma versão tosca desse tipo de propaganda. Bem tosca mesmo, faço questão de frisar, porque, além de absurda, ela soa cômica quando lemos duas ou três vezes.

Vamos aos fatos: tenho dois familiares bem próximos a mim que são pré-candidatos nesta eleição, meu pai, que tenta pela terceira vez uma vaga na Câmara Municipal de Valadares, e meu irmão, que compõe uma chapa para a disputa majoritária em Frei Inocêncio, como vice-prefeito.

A malfadada propaganda traz a foto dos dois com o seguinte questionamento (que é legal quando você lê imaginado a voz do Datena, fica a dica): “ESTÃO PREOCUPADOS COM O MUNICÍPIO OU SÓ ESTÃO ATRÁS DO PODER?”, e, logo abaixo, a conclusão “óbvia”: “PAI E FILHO, SIMPLESMENTE ATRÁS DE PODER!!!”, assim mesmo, com três exclamações – “Isso é um absurdo!!!”, concluiria o Datena pedindo imagens ao vivo do helicóptero.

Muita gente não sabe, mas a vida política do meu pai começou em Frei Inocêncio, quando um padre comunista, o italiano Padre Gino, mostrou as injustiças do mundo para um menino que cresceu a vivenciá-las: na penúria da roça da família no córrego Boa Vista ou lavando caminhões e carretas no posto do Seu Neném, às margens da 116. Essa foi a semente plantada, dali em diante sua vida foi pautada pela luta política, seja contra o agronegócio, seja contra as oligarquias que nada ou pouco fizeram para melhorar a vida dos que mais necessitam.

Depois de quase uma vida dedicada a trabalhar e se envolver com política, sua declaração de bens e o extrato da conta corrente são suas maiores provas de que não se enriqueceu com dinheiro público – refutando acusações que já fizeram e outras que por ventura venham a fazer. Assim, com um histórico de décadas de atuação em movimentos sociais, depois de ocupar diversos cargos em governos progressistas, incluindo sua passagem na superintendência do Incra – trabalhando diretamente no nosso tímido processo de reforma agrária –, meu pai não merece ser chamado de oportunista.

Da mesma forma que meu irmão. Mais novo que eu e cujo vínculo é só pela parte do pai. Sim, mais novo, a conta não fecha mesmo. Em Game of Thrones ele seria um Snow, e acredito que essa é a melhor definição para explicar que ele foi concebido em uma relação extraconjugal, pois afinal, Jon Snow é o legítimo herdeiro do trono de Westeros (que essa alusão traga bons presságios!).

Conheci ele no início da minha adolescência e nos aproximamos muito por conta do jogo de xadrez. Estudávamos na mesma escola em Frei Inocêncio e nós dois conseguimos ser campeões nos jogos escolares de Minas Gerais. Hoje, além de um enxadrista muito melhor do que eu, ele é professor de história e atua politicamente desde bem moço. É ativo no Sind-UTE e no Partido dos Trabalhadores, em Frei Inocêncio. Costumo brincar que ele puxou as qualidades do meu pai e eu os defeitos, o que não é de todo mentira.

Na verdade, os dois são candidatos porque a política pulsa em suas veias, o espírito de liderança e a energia de querer melhorar as coisas estão no DNA de cada um. Meu pai tenta uma vaga na Câmara de Valadares, porque é aqui que ele reside; e meu irmão, quer ser vice-prefeito em Frei Inocêncio e não em Marte, pelo simples fato de morar nessa cidadezinha desde que se entende por gente. Existe mesmo alguma dificuldade em entender isso?!

O presidente (sim, sim, vou ter que falar do presidente), quando era deputado federal, conseguiu colocar todos os filhos para mamar nas tetas do Estado. Inclusive, mandou o “zero três” disputar uma vaga na Câmara Federal através do estado de São Paulo, mesmo sendo carioca da cabeça sem cabelo ao dedão do pé. Não seria isso um projeto de poder?!

Para não ir tão longe, outro dia ouvi da boca do próprio aventureiro – filho de uma celebridade obscura de Valadares –, que ele foi enviado pela família na década de 60 para um estado recém fundado do norte, com a missão de disputar uma vaga no senado federal – onde seria mais viável do que as concorridas vagas mineiras –, mesmo sendo tão valadarense quanto o calor escaldante e a Ibituruna, que ainda dá algum charme para esta cidade tão cheia de contradições. Repito: não seria isto uma busca incessante pelo poder?!

Minha família é pobre, vem de baixo, mas tem consciência de classe! Quando formos buscar o poder, o verdadeiro poder, será para tomar os meios de produção para o povo, entoando o grito que ecoará pelo planeta: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”.


Lucas Lima

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